Ebenézer Furtado Gueiros: um dos homens mais importantes para dá celeridade nas obras da Hidrelétrica de Boa Esperança em Guadalupe.

Ebenézer é nome bíblico, que em hebraico quer dizer “Até qui nos tem ajudado o Senhor”. Esse foi o nome que o pastor Antônio de Carvalho Silva Gueiros deu ao seu sexto filho, nascido em 17 de outubro de 1915.

Para os da família, ele era conhecido pelo apelido de “Biía”. Uma irmã mais velha, Ruth Gueiros Thompson, que ajudou a criar Ebenézer, dizia que ele fora uma criança belíssima. Pequena, porém bela. Foi sempre de tamanho diminuto, mas um grande esportista, tendo na juventude se dedicando à halterofilia, boxing e futebol. Treinou boxing com o missionário William G. Neville – missionário, ex-boxeador da marinha americana – que instituíra o boxing como parte do programa de educação física do Colégio 15 de Novembro. Essa modalidade de esporte foi eventualmente cancelada naquele colégio, por insistência do pastor Jerônimo Gueiros, que a considerava “bárbara”. Ebenézer dedicou-se então à halterofilia e ao futebol, tendo sido uma das estrelas da equipe futebolista escolar. Era pequeno, mas extremamente rápido, driblando os adversários com grande facilidade.Ebenézer Furtado Gueiros

Em 1936, em um jogo de futebol contra a escola correcional de Garanhuns – chamada Patronato – fez tantos gols que ficou odiado pelos adversários. Na saída do jogo, um brutamontes daquela escola resolveu vingar da derrota sofrida e avançou para bater no pequeno, mas eficiente atacante do 15 de Novembro. O professor Aggeu Vieira da Silva, cunhado de Ebenezer, e pai deste autor, um antigo “bengalista” recifense, que sempre carregava uma bengala, defendeu o cunhado, dando tal bengalada no mesmo, que o derrubou. Confusão, gritos e corre-corre. O professor foi chamado pela polícia para se explicar, no que foi acompanhado por toda a estudantada do colégio. Na chefatura, confrontado pela diferença de tamanho entre Ebenezer e o seu atacante, o delegado considerou a bengalada bem merecida e bem aplicada.


Foi aluno exemplar, e considerado de inteligência excepcional. Ao terminar o quinto ano ginasial, símile aos irmãos mais velhos, Ebenezer foi para o Recife, a fim de buscar trabalho e cursar a Faculdade de Direito, onde se graduou em 1947.Foto: Chesf

Quando ainda estudante da faculdade, e líder da mocidade da Primeira Igreja Presbiteriana, Ebenezer foi convidado pela Igreja Presbiteriana do Sul dos Estados Unidos da América, para visitar aquele país. Passou oito meses viajando pelos Estados Unidos e visitando igrejas presbiterianas em vários Estados, tendo nessa ocasião reforçando seus conhecimentos da língua inglesa.

Em 1943, seus conhecimentos de inglês – aprendidos no Colégio 15 de Novembro – e melhoramentos pela viagem prolongada aos Estados Unidos, lhe foram de grande valia. Foi contratado pela marinha norte-americana para gerenciar a mão-de-obra brasileira na base aérea americana, na Ilha de Fernando de Noronha, onde também foi trabalhar seu irmão Rubem Furtado Gueiros. Era tempo de guerra, numa ilha com condições de existência precárias, habitada na maioria por ex-presidiários e seus descendentes.

Nos finais da década de 1940, foi criada a Companhia Hidrelétrica do São Francisco – CHESF, tendo Ebenézer ido trabalhar nela como secretário de um dos diretores da mesma, o Dr. Marcondes Ferraz. Foi então convidado para chefiar o Departamento Jurídico daquela companhia. Fez carreira na CHESF, sempre muito apreciado por todos, pela correção de seu comportamento. Em 1964, foi diretor administrativo da Companhia Hidrelétrica da Boa Esperança – COHEBE, no Maranhão, subsidiária da CHESF, com escritórios no Recife. O então presidente da CHESF, Apolônio Sales, em discurso de despedida afirmou: “Estamos perdendo uma pedra muito preciosa, porém esperamos recuperá-la algum dia”. Foi então licenciado para exercer o cargo de diretor da COHEBE, exercendo também, acumulativamente, o cargo de Diretor da CEMAR – Companhia de Eletricidade do Maranhão.

Foi nessa posição, de Diretor da COHEBE, que Ebenézer Gueiros passou por uma interessante experiência, muito ilustrativa do seu caráter. Como diretor executivo da hidrelétrica que estava em obras a todo vapor, foi-lhe submetido a primeira fatura da construção da Hidrelétrica da Boa Esperança em Guadalupe no estado do Piauí . Solicitou que o departamento de contabilidade a certificasse, e tudo estando correto, dentro de 15 dias autorizou o pagamento da mesma.

Assim, Ebenezer administrou a construção da Hidrelétrica da Boa Esperança até o seu término. A inauguração dessa obra ocorreu em 25 de maio, de 1968, com a presença do presidente Humberto de Alencar Castelo Branco, e de vários ministros do governo. Foi nessa ocasião que Ebenezer sofreu um acidente que lhe tirou a vida, bem como de Cleide Amorim Gueiros, sua mulher, e do filho mais velho Calvino.

As cerimônias da inauguração da hidrelétrica levaram mais tempo do que o planejado. A presença de Ebenezer Gueiros era requerida no Recife, no dia seguinte, para assinatura de contratos importantes da COHEBE, mas este não queria viajar, visto que o único avião táxi disponível pertencia a um piloto com o brevê cassado pela Aeronáutica, por atos de irresponsabilidade. O ministro César Cals, presidente da CHESF, no entanto, pressionou-o para que viajasse de qualquer maneira naquela aeronave, chegando a fazer gracejo com o temor que Ebenezer tinha do piloto, gracejo esse do qual sem dúvida César Cals muito se arrependeu: “Mas logo você, que é tão crente! Leve sua Bíblia. Deus o protegerá!”

A viagem durou mais tempo do que o previsto – pois chovia em todo o sertão – de modo que chegaram ao Recife já no escuro. O tempo fechara e se transformara em forte tempestade. O piloto recusou pousar no campo do Ibura, no Recife, o único disponível com pista iluminada – assim ficou registrado através dos contatos feitos pelos rádios dos aeroportos de toda região – pois seria preso pela Aeronáutica, por voar com brevê cassado. Tarde demais, regressou a Caruaru, já no escuro, para utilizar um campo de pouso local, sem iluminação. O avião caiu, com a gasolina já esgotada.

Nesse desastre morreram Ebenezer Gueiros, sua mulher Cleide Amorim Gueiros e o filho mais velho João Calvino. Morreu também Pedrina Silveira, mulher de Hilton Hariram da Silveira, outro diretor da COHEBE, que viera na mesma aeronave. Junto aos escombro do avião foi encontrada a Bíblia de Ebenezer. Sem dúvida nela ele procurara encontrar forças para enfrentar os últimos momentos de terror, voando em avião sem gasolina e no meio de uma tempestade.

Além de César Cal’s, Deputado Federal Milton Brandão, Ebenezer Gueiros foi um dos homens mais importantes para dá celeridade na execução das obras da nossa Hidrelétrica Boa Esperança.

Na cidade de Guadalupe Piauí, Ebenézer Gueiros e a sua esposa Cleide Gueiros, receberam as merecidas homenagens póstumas em dois centros educacionais levando os seus respectivos nomes que, foram na época, administrados por muitos anos pela CHESF, e, atualmente, seguem geridos pela Prefeitura Municipal de Guadalupe.
Já o hospital local da mesma cidade, recebeu o nome de Pedrina Silveira.

Fonte: Trajetória de uma Família “A História da Família Gueiros” do escritor David Gueiros Vieira – Primeira Edição – Julho de 2008 – Editora Nossa Livraria.Postado por Anchieta Gueiros

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